Ritualisticamente eu me banhava cronometrando a perda de tempo. A voz atravessou a porta – e recomeçando sua trajetória como onda, quebrou-se próxima ao bidê. Quase pude vê-la ali, nua, perturbação oscilante, glúteos saudáveis que reanimam.
– Foche, tem um cara vendendo peixe aqui. Você o conhece? Quer comprar?
Com a firmeza de um resmungar, declinei. Em complemento à resposta, também para lhe demonstrar o status quo daquela terra, acrescentei mais aos meios lineares.
– Fala pr’ele i lá no titio qu’ele sempre compra um pixinho.
Falo Cuiabanês com naturalidade. Evito assim que o mesmo seja respeitado exclusivamente quando analisado de fora como genuíno objeto de anedota distorcida. Tais coisas eu faço porque preciso. Por exemplo: vou ao bar, mas volto sóbrio. Aviso-a: “Meu amô, a pharmácia tá fechado.” Ou ainda, vejamos outro modelo de conduta: antes de dormir, lhe sussurro: “Bebe logo esse caldo de djaú no mamadeira, xô cancro sifilítico guspido dum cu!” Tais coisas falo para encher o próximo de pavor, porque amo. Falo Cuiabanês, Economês, Juridiquês e Bichês contra o academicismo. Se o formalismo ainda vai triunfar? Não sei. Fracasso é direcionar potente jato de urina para a sujeira na porcelana e não purificá-la. Ficou claro? Claro como a lua refletida numa poça de vinho? Sim, afinal, longe de mim! Não permito que se iludam ao meu respeito, não; apenas comigo.
Ao sair do box purificado feito recém-criado signo do zodíaco me toquei que o tempo só passava e para meu espanto o sujeito não funcionava como a água do chuveiro. Bem sabemos que esta possui três inequívocos estados: agravante (não alcoólico), atenuante (alcoólico) e transparente (meramente ilustrativo). In abstracto, a freqüência é a mesma para qualquer tema.
– Será que vamos nos atrasar? – questionei-a, previamente conhecendo o mau funcionamento do ato.
– Quanto mais tarde saímos, mais cedo chegamos – respondeu, imitando a brandura de uma atriz pornô.
Por conta disso, informei-a de que essa “Discussão de Relação” no vácuo estava sendo gravada.
– A serenidade do embrutecimento me move, Daquilo – retrucou, e, numa tentativa homonímica, rotulou-me para que não percebesse que me trancava no banheiro.
Honestamente, tínhamos tanta coisa errada em comum que as certas optaram por entrar em concordata. Noutra perspectiva, percebi que tinha tanta formiga amontoada ali que às vezes não enxergávamos as balinhas jogadas no chão. Somente os seus pés. Mas se você segui-los, eles ensinarão à saudade o pirotécnico caminho do campo minado.